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Os super-ricos e os paraísos fiscais
Paraísos fiscais e desregulação Mas… e ninguém nunca percebeu nada?! David Runciman, London Review of Books, vol. 33, n. 8, abril-2011, pp. 20-23
Tradução do Coletivo da Vila Vudu
Resenha de – Treasure Islands: Tax Havens and the Men who Stole the World [Ilhas do Tesouro: Paraísos Fiscais e os Homens que Assaltaram o Mundo], Nicholas Shaxson, Bodley Head, 329 pp, £14.99, January 2011, ISBN 978 1 84792 110 9 – Winner-Take-All Politics: How Washington Made the Rich Richer – and Turned Its Back on the Middle Class [A política de O Vencedor Leva Tudo: Como Washington fez os ricos mais ricos e deu às costas ao povo médio], Jacob Hacker e Paul Pierson, Simon and Schuster, 368 pp, £11.50, March 2011, ISBN 978 1 4165 8870 2 Como se compõem e integram o personagem de Saif al-Islam Gaddafi, figura emblemática de nosso tempo – com doutorado na London School of Economics (“O Papel da Sociedade Civil na Democratização das Instituições de Governança Global”), suas fundações de caridade, sua extensa relação de propriedades, o estilo playboy de levar a vida, a coroada e brilhantíssima coleção de amigos (Peter Mandelson, Nat Rothschild, Príncipe Andrew), seu acesso livre ao fundo soberano da Líbia – e sua recentemente enunciada disposição para eliminar os inimigos do regime de seu pai, “um tiro em cada um”? É hipócrita, provavelmente, mas isso não explica grande coisa. Também, para alguns, seria vítima: seu infeliz orientador acadêmico e mentor na LSE, David Held, descreveu em termos de “coisa shakespeareana”, o cataclismo cerebral pelo qual o reformador neoliberal Saif teria passado para sobreviver, depois que o povo de seu pai revoltou-se em armas. Mas isso também não nos leva a qualquer discussão mais consistente. É provável que seja bandido-gentleman, que muitos observadores online identificaram ao bandido de fala suave e empresário elegante ‘Stringer’ Bell, personagem do seriado The Wire[1]. Mas as palavras que mais bem capturam Saif Gaddafi aparecem no impressionante comentário que Nicholas Shaxson construiu em seu livro, do papel que os paraísos fiscais cumprem hoje nas finanças internacionais. Shaxson não discute
os próprios Gaddafis, mas pinta um quadro mundial no
qual o jovem Gaddafi, até bem recentemente, vivia
perfeitamente à vontade. É o mundo do ‘offshore’
[ing. literalmente “ao largo”, “em mar alto”; por
extensão, designa os chamados paraísos fiscais,
muitos deles localizados em ilhas; mas a expressão
aparece também em “petróleo offshore”, para designar
petróleo submarino; e em “pesca offshore”, pesca de
alto mar (NTs)]. No que aqui interessa, é o mundo
dos paraísos fiscais, da deslocalização do dinheiro
para fora de fronteiras territoriais continentais
das grandes potências. Shaxson não se limita ao
significado técnico do termo, de designação de
jurisdições privadas que existem para permitir que
os muito ricos não paguem impostos. Usa a palavra
‘deslocalizado’, ‘ao largo’, offshore, tanto para
pessoas como para lugares, e tanto para qualificar
um meio de vida, como para qualificar um estado
mental. Assim definido, o adjetivo “deslocalizado”
passa a ser palavra utilíssima. Saif Gaddafi é
sujeito global deslocalizado, dos que vivem no mundo
deslocalizado do dinheiro offshore.
A expressão
memorável, definitiva, que Shaxson cunhou para tudo
isso é “o teatro da probidade”. Os suíços sempre
foram mestres nessa arte, com suas maneiras formais
e papelada mínima, gerida com perfeição. Mas outro
dos campeões mundiais dessa arte são os britânicos.
O livro de Shaxson explica como e por que Londres
tornou-se o centro do que o autor chama de “teia de
aranha de atividades deslocalizadas offshore” (e
que, no processo, passou a oferecer lar confortável
para os Saif Gaddafis do mundo). Porque a
deslocalização offshore é movimento típico de
impérios em declínio. Faz perfeito sentido e
adapta-se muito bem a país que tem aparência de
opulência e grandeza e de viver segundo padrões
muito altos, mas que, por baixo dos panos, vive
desesperadamente precisado de arranjar sempre e
sempre mais e mais dinheiro. Os depositantes podem, sem qualquer comichão ‘ética’, depositar o próprio dinheiro em locais que sentem como ‘jurisdição britânica’, mesmo que, de fato, não sejam submetidos a nenhuma lei ou regulação britânica (e a nenhuma lei de impostos britânica). As ilhas Cayman, ou Jersey, fazem uso pleno de suas conexões britânicas, para assegurar aos muito ricos que seu dinheiro esteja em total segurança (o hino nacional de Cayman ainda é “God Save the Queen”), mas se alguém reclama às autoridades britânicas, de que aquelas ilhas estão sendo usadas por criminosos e ditadores para lavar dinheiro, o reclamante é informado de que são governos democráticos independentes, sobre os quais a Grã-Bretanha não tem qualquer poder. É o papel que Hong Kong desempenhou antes de ser devolvida à China em 1997: podia ser apresentada ao mundo exterior como local onde reinavam valores britânicos, mas sem a funesta tendência dos britânicos de aumentar impostos e impor padrões regulatórios às finanças, por ação de pressões políticas. Desempenha hoje o mesmo papel, agora para a China. Depois de 1997, a China preservou Hong Kong como uma ‘zona administrativa especial’ autônoma do continente em todos os campos, exceto no que tenha a ver com relações internacionais e defesa. Nas palavras de
Shaxson, “As semelhanças com o laço ambíguo que liga
a Grã-Bretanha e as ilhas Jersey, ou
Grã-Bretanha-Cayman, não são coincidência. As elites
chinesas querem ter seu próprio centro
deslocalizado, offshore, com controle político à
parte e separação jurídica”. O que sugere que os
centros de finanças deslocalizados, offshore, também
prestam bom serviço a impérios em ascensão. Portanto, quanto mais você examina o aquário, mais você se convence da transparência dele, até convencer-se de que, ali, nada se poderia esconder. Jersey é caso exemplar: local agradável, de pessoas gentis, com forte senso de responsabilidade civil e cheio de oportunidades para qualquer empreendedor, inclusive para o Estado empreendedor, com eleições para todos os cargos públicos (senadores, deputados, xerifes e policiais de quarteirão), mas com partidos políticos muito fracos, com eleições gerais quase só formais e sem que jamais, ali, tenha havido alguma alternância nos postos eletivos. “Os incomodados mudam-se daqui” é a lei jamais desmentida da política transparente das ilhas Jersey. Evidentemente a diferença de opinião não foi completamente abolida, como seria sob ditadura (e motivo pelo qual as ditaduras dão péssimos paraísos fiscais: sob ditadura, ninguém jamais sabe quando a coisa toda voará pelos ares). Ali, apenas se dá tempo ao tempo, e todas as diferenças de opinião esvaziam-se. Acontece exatamente o mesmo nas Ilhas Cayman, com população mínima (cerca de 55 mil habitantes), deputados e senadores eleitos e governador-geral nomeado por Londres, que toma todas as decisões, mas, sempre, depois de ouvir a população local, democraticamente. Como disse um
ex-governador-geral de Cayman, “acho que vivemos
aqui no mundo da semântica. Quantos mais Caymanenses
sejam nomeados para postos de poder, melhor. Os
nativos servem como faróis condutores, esclarecendo
os pontos obscuros, sempre que há divergência de
opinião no plano político”. Depois da 2ª Guerra Mundial, a libra esterlina ainda financiava grande parte do comércio global, mas a economia britânica já não tinha como defender o valor do pound contra o dólar. Depois de Suez, que provocou uma corrida para o pound, o governo tentou impor limitações aos empréstimos externos feitos por bancos comerciais londrinos. A resposta dos bancos, com a conivência do Bank of England, foi transferir seus empréstimos internacionais para o dólar. O resultado foi que assim se criou o chamado “mercado do eurodólar” – que sempre foi um muito efetivo paraíso fiscal, deslocalizado, offshore. Porque as trocas comerciais estavam acontecendo em dólares, os britânicos entenderam que não era preciso impor regulação alguma; e, porque estava acontecendo em Londres, os americanos não tinham meios para taxar aquelas trocas ou regulá-las, fosse como fosse. Entre os primeiros
a perceber as vantagens do novo sistema estavam os
soviéticos, que precisavam de lugar seguro para
guardar seus dólares fora dos EUA, de modo que os
americanos não pudessem congelá-los, no caso de as
relações entre os dois países se deteriorarem. Pouco
depois, os próprios americanos acompanharam o
movimento de ‘deslocalização’, offshore, dos
soviéticos rumo a Londres; não todos os cidadãos
norte-americanos, claro: só os bancos
norte-americanos e os indivíduos muito ricos – que
viram o mercado londrino como alguém com quem podiam
negociar, perfeitamente protegidos das garras das
autoridades tributárias dos EUA. O dinheiro começou
a chegar a Londres em pilhas e pilhas e pilhas. Os estrategistas da economia dos EUA estavam, pois, ante um dilema. Podiam tentar enfrentar a ameaça do mercado deslocalizado, ou com maiores juros domésticos, ou com controles ainda mais apertados contra a saída de dinheiro e regime regulatório mais rígido que exigisse dos bancos dos EUA que prestassem informações ao fisco nos EUA sobre suas atividades no mercado offshore londrino. E os EUA podiam ainda copiar Londres e criar seu próprio offshore doméstico, mais perto de casa: em outras palavras, se você não pode derrotá-los, alie-se a eles. A segunda via era a
via de menor resistência – dentre outras coisas,
seria meio útil para fortalecer a posição do dólar
como moeda global de reserva; e, ao longo do tempo,
os EUA escolheram essa via. Lentamente, a partir do
final dos anos 1960s, ao longo dos anos 1970s e,
depois, muito mais rapidamente nos anos 1980s e
1990s, os EUA desregularam todos os controles
financeiros e deixaram que o dinheiro se
movimentasse daqui para lá, com cada vez menos
perguntas, controles e limitações, na esperança de
que, no fluxo, mais dinheiro acabaria deixado pelo
caminho, grudado nos dutos. Se você mudasse seu
negócio para o Delaware (o que custava, apenas, o
trabalho de mobiliar um escritório-sede e preencher
alguns formulários), praticamente ninguém ou quase
ninguém conseguiria provar coisa alguma contra você,
porque as cortes de justiça do Delaware viviam sob a
firme crença de que o que você fizesse era problema
seu, não delas. Outra vez, os demais estados
enfrentaram um dilema: podiam tentar isolar o
Delaware, apertando cada vez mais os seus próprios
padrões regulatórios, ou abriam uma disputa pela
partilha do botim. Vários estados dos EUA decidiram
competir e buscar a sua parte naquele latifúndio de
desregulação. O que começara deslocalizado para
longe, passou a ser deslocalizado aqui mesmo. O
offshore atracou. Shaxson define um paraíso fiscal sem taxas e impostos, como “local que procura atrair negócios oferecendo estabilidade política, para ajudar pessoas e empresas a escapar de regras, regulações e jurisdições de que o resto do mundo vive cheio”. E é aí que está o xis. Que fim deram à política? Por que esses movimentos do grande dinheiro não geraram instabilidade política, ou, no mínimo, alguma discussão política? No caso do Delaware, como em outras comunidades-aquário, o tamanho provavelmente explica alguma coisa (por longo tempo, toda a política estadual do Delaware foi modelada pela ação da família Du Pont, cujas vastas operações, na indústria química, dominavam a economia local). Mas no caso, digamos, de Washington, onde a mudança para uma forma de pensar de deslocalização ampla, de desatracamento, de offshore amplo geral e irrestrito do grande dinheiro deveria, no mínimo, ter gerado discussão social e, no mínimo, alguma oposição política empenhada? O que aconteceu aos
representantes eleitos de todas as multidões de
norte-americanos que não têm milhões e milhões a
defender, que não têm dólares a deslocalizar nem que
quisessem deslocalizar-se um pouco, e que tem, isso
sim, interesse amplo geral e irrestrito em criar e
defender sistema justo, amplo, progressista e
progressivo de impostos, e que seja eficiente em
termos de arrecadação? Não viram o que estava
acontecendo?! Mas… mas… ninguém nunca percebeu
nada?! Nesse sentido, Washington é perfeito para acolher paraísos fiscais, dinheiro grosso deslocalizado: a política, em Washington foi completa e absolutamente capturada pelos interesses de um grupo muito pequeno de indivíduos extremamente ricos – a maioria dos quais são o próprio mundo da grande finança. Para Hacker e Pierson isso, mais que qualquer outro fator, explica por que os muito ricos ficaram tão mais ricos ao longo dos últimos 30 anos. Quando dizem “ricos”, não dizem “ricos em geral”: falam dos super-ricos. Os verdadeiros beneficiários da explosão dos ganhos dos mais ricos desde os anos 1970s não foram os 1% mais ricos, mas, sim, os 0,1% mais ricos da população total. Desde 1974, os 0,1% mais ricos dos EUA viram sua renda passar de 2,7 para 12,3% do total da renda nacional, o que parece ser o caso mais espantoso de desigualdade na distribuição nacional, entre os que têm e os que não têm. Quem são essa gente? Como Hacker e Pierson observam, não são necessariamente superestrelas e celebridades do mundo da arte, entretenimento ou esportes. Nem são herdeiros ricos que vivem de fortuna acumulada nas famílias, como se via acontecer no início do século passado. Hoje, parcela
significativa dos super-ricos são executivos e
gerentes, muitos deles, executivos e gerentes de
empresas financeiras. O que aconteceu foi construído, por pressão de lobbystas e de outras organizações para criar ambiente amigável para os super-ricos, que satisfaça suas necessidades. E se trata, de fato, de uma espécie muito particular de política, e de uma espécie muito específica de escolha. Não é resultado de conspiração, dado que aconteceu aí, à vista de todos. Mas não é movimento político do tipo de política que se vê nas ruas, com comícios, discursos e triunfos eleitorais. A política que deixou que acontecesse o que aconteceu com o grande dinheiro planetário deslocalizado depende em grande parte do que Hacker e Pierson chamam de “um movimento de deriva”: “fracassos sistemáticos, prolongados de sucessivos governos responderam à deriva de um movimento econômico. Os políticos e decisores, com grande frequência, foram persuadidos a não resistir, a nada fazer, a deixar que as coisas se acomodassem, que andassem para onde quisessem andar, que o dinheiro corresse pelo mundo, para cima e para baixo, à vontade, até que o dinheiro se acumulou na ponta mais alta da pirâmide. Essa ideia faz eco
ao que Shaxson diz sobre como o sistema de
deslocalização do grande dinheiro foi deixado livre,
leve, solto, sem qualquer controle, ao longo dos
últimos 40 anos. E nem se fala de conspiração,
porque ninguém precisou conspirar. De fato, o que
aconteceu aconteceu porque “ninguém estava prestando
atenção ao grande dinheiro”. Muito
frequentemente, dizem eles, reduzimos a política ao
plano do esporte: “Isso, sem dúvida, é o que explica
que a política eleitoral seja tão atraente, como
tema, para a mídia: é excitante e é simples. Os
torcedores memorizam as jogadas características de
seus atletas preferidos ou se tornam especialistas
em grandes pelejas passadas. Mas todos sempre podem
gozar o apaixonante espetáculo oferecido por duas
equipes altamente motivadas disputando a palma.” Seria fácil aceitar que, se os ricos têm vencido nas últimas décadas, o processo começou com a eleição do grande agente pró-big business e antigoverno que foi Ronald Reagan em 1980 (e, concomitantemente, de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha em 1979). Mas Hacker e Pierson dizem que o verdadeiro ponto de virada aconteceu antes, em 1978, ainda durante a presidência de Jimmy Carter. Nesse ano, os lobbyistas e outros grupos organizados, que trabalhavam para implantar na opinião pública os discursos pró-desregulação e execravam o “peso dos impostos e regras” sobre os mais ricos e os interesses das grandes corporações, descobriram que ninguém labutava na resistência contra seus planos. Apesar de o Partido Democrata controlar a Casa Branca e as duas Casas do Congresso, 1978 assistiu à derrota de todas as tentativas para aprovar reformas progressistas no campo tributário e para fortalecer a posição legal dos sindicatos. Em vez disso, aprovaram-se leis para reduzir a carga tributária das empresas e aumentar a carga tributária dos empregados (leis que autorizam desconto de impostos na fonte, que são leis conservadoras). Tudo isso aconteceu, porque os políticos seguiram a via de menor resistência – como sempre fazem os políticos eleitos – e a resistência mais bem organizada e mais bem abastecida de dinheiro veio dos representantes do big business, não das forças trabalhistas organizadas. O que aconteceu nos EUA nos anos 1980s foi portanto uma extensão dos anos Carter, não alguma virada em relação a eles. O processo de desregulação e redistribuição rumo à concentração do dinheiro no pico da pirâmide foi acelerado nos anos Reagan, que era amplamente simpático a essa concentração. Mas não aconteceu por Reagan ser simpático ao processo, mas porque suas simpatias encontraram ambiente político favorável para correr com rédea solta, ambiente no qual a oposição manteve-se muda e a esperada coalizão de interesses populares jamais se materializou no campo contrário. Afinal de contas, como Hacker e Pierson observam, Richard Nixon, do qual se poderia esperar que partilhasse várias das simpatias de Reagan, uma década antes, havia labutado na direção oposta e acolhera o marco legal do estado de bem-estar e mantivera um sistema tributário amplamente progressista. (Processo semelhante acontecera na Grã-Bretanha, com Edward Heath.) Nixon agiu como
agiu, não por suas simpatias estarem num lado ou
noutro, mas porque não teve escolha: a pressão
organizada para impedir que se aprovassem leis de
concentração da riqueza ali estava, atenta, e muito
mais forte que a pressão a favor dos interesses dos
muito ricos. Só durante os anos Carter é que essa
pressão enfraqueceu, e enfraqueceu muito mais do que
se poderia esperar que enfraquecesse. Os políticos
da revolução Reagan/Tatcher fizeram o que fizeram
porque eram ideólogos comprometidos, determinados a
não ceder um palmo de seus princípios. Fizeram o que
fizeram, porque perceberam que não seriam presos nem
seriam eleitoralmente derrotados. Democracia implica favorecer os interesses da maioria, em detrimento dos interesses da minoria. Nas palavras de Hacker e Pierson, “A democracia talvez não preste em muitos pontos. Mas se supõe que seja eficaz para solucionar problemas que afetam maiorias amplas.” Será que a maioria realmente não se incomodou com estar perdendo tanto, a favor dos interesses de uma pequena elite de super-ricos? No caso dos EUA, a ideia geral é que os eleitores permitiram que tudo acontecesse porque vivem preocupados com outras coisas: religião, cultura, aborto, armas etc. Quem pense assim entende que os norte-americanos comuns assinaram uma espécie de pacto faustiano com o Partido Republicano, pelo qual os ricos ficariam com o dinheiro e os pobres receberiam apoio e respeito aos valores culturais que lhes eram caros. Hacker e Pierson rejeitam essa ideia, mas não só porque não acreditam que o processo que analisam dependa de haver um Republicano na Casa Branca. Os autores veem
fortes evidências de que o público eleitor
norte-americano continua a desejar um sistema
tributário mais justo e entende que não é trabalho
dos políticos proteger os interesses dos mais pobres
contra os interesses da alta finança. O problema
parece ser que os eleitores simplesmente não sabem o
que os políticos fazem. O eleitor não é
adequadamente informado sobre como as leis foram
sendo consistentemente alteradas na direção que mais
prejudicava o maior número de pessoas. “Os
norte-americanos também são igualitaristas no que
tenha a ver com o que entendem como mundo ideal” –
escrevem Hacker e Pierson. “Mas têm opiniões muito
menos claras, menos acuradas, quando se trata do
mundo real”. Essa crítica tradicional não vê qualquer fragilidade na democracia, no sentido de supor que os eleitores desejem coisas erradas, ou que não saibam o que querem. O eleitor sabe o que quer, mas não sabe como consegui-lo. As pessoas não são idiotas, mas, no que tenha a ver com política e votos, são ignorantes, preguiçosas, deixam-se satisfazer rapidamente por qualquer resposta de ocasião, construída para acalmá-las e calá-las. Hacker e Pierson reconhecem que hoje já se vê como ‘politicamente incorreto’ dizer tais coisas, mesmo nos discursos políticos sérios. Mas ainda é plena verdade. “A maioria dos cidadãos dá pouca atenção à política, o que se vê pelas ruas. Generosidade política, hoje, seria, precisamente, chamar a atenção dos eleitores para seus vícios.” A solução tradicional que se encontrou para esse problema tem sido suprir a ignorância dos eleitores com opiniões de especialistas, que se apresentam como dispostos a reformar todo o sistema, na direção do melhor interesse dos eleitores. A dificuldade é que, quanto mais falam esses especialistas, menos os eleitores manifestam interesse em informar-se mais sobre o que se passa no mundo. É onde Hacker e
Pierson identificam o xis do problema da política
democrática: para combater o que acontece fora do
radar dos eleitores, é preciso que a luta continue a
acontecer nos espaços que o eleitor vê. A esperança
progressista é que, assim sendo, o leitor
eventualmente acorde para as lutas e decida
engajar-se nelas. Nas palavras de Hacker e Pierson:
“Os reformadores políticos têm de aprender a
discutir política pequena e para poucos, em milhões
e milhões de fronts, a política de eixo longo e
transmissão complexa.” O que exige muito tempo. Em ambiente de altas finanças, cada vez mais rápido, é sempre mais fácil reunir uma coalizão de vontades a favor de cada vez menos regulações e regras, que reunir gente para trabalhar a favor de mais regulações ou leis mais apertadas. Assim também, é sempre mais fácil não aplicar leis que haja, do que fazê-las valer: não aplicar leis é trabalho instantâneo – basta fechar os olhos, exige o tempo de uma piscadela –, mas aplicar leis é processo lento e laborioso. Shaxson, como tantos de nós, parece ter construído a arapuca na qual se vê preso. Por um lado, entende que a chave para resistir ao poder do dinheiro deslocalizado, global, offshore, super concentrado no topo da pirâmide, é construir sistema mais transparente, baseado no que chama de “troca automática de informação, em plataformas multilaterais”. Mas, isso, é o mesmo que entregar o timão aos especialistas (que, cada dia mais, falam sozinhos, ou só entre eles). Por outro lado,
Shaxson quer governos nacionais mais ativos,
dinâmicos, que respondam mais e melhor aos cidadãos.
Mas, nesse caso, supervalorizam-se os governos
nacionais e se enfraquece qualquer governança
global, cuja coordenação é indispensável a qualquer
sistema que se queira transparente. Se as políticas
nacionais forem reforçadas, mais difícil será
implantar qualquer coordenação no plano
internacional. Essa é a arapuca-total em que se
meteu a globalização. Shaxson recomenda também que os governos se dediquem mais a manter ‘em casa’ o dinheiro da grande finança. Uma das forças motrizes do mundo da grande finança deslocalizada global offshore, diz ele, são “as marés de dinheiro sujo do petróleo que escorrem para dentro do sistema offshore global, e distorcem, nesse processo, toda a economia global.” Solução radical para manter as riquezas minerais dos países longe das mãos dos poucos indivíduos hiper-ricos e nas mãos de cidadãos comuns, é redistribuir o dinheiro, internamente, diretamente para os cidadãos. Parece irrealista, mas já se faz assim em vários lugares do mundo, por exemplo, na Líbia e no Alaska. Mas Shaxson não deixa que sua análise avance até a revelação dos nomes dos políticos governantes que fazem isso: Muammar Gaddafi, na Líbia; e Sarah Palin, no Alasca. Assim sendo, sim, políticos ágeis, socialmente sensíveis, democráticos ou não, podem fazer grande diferença; mas não se conclui daí que, de suas políticas, resultem melhor compreensão entre os povos, nem, sequer, alguma paz. Esses dois ensaios brilhantes que resenhamos aqui acertam, ao sugerir que a política seja parte da questão. Mas a política (e a democracia) continuam a ser, também, sempre, parte do problema.
Os
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